CRISTO CRÔNICO

Cristo é um tema crítico, que já tirou o sangue e o sono de muita gente. Pregar sobre Jesus é pregar-se na cruz. Ousar interpretar um mito do porte crístico é oferecer a cara a cuspe. Falar daquele que trouxe a espada e não a paz poderia ser um convite à reflexão. Mas parece mais um convite à luta, à multa, à loucura.

 

Reza a lenda que Deus criou os homens. Milênios depois, os homens criaram os deuses. Descontentes, os judeus mataram os deuses e inventaram Deus. Pra desfazer o mal-entendido, Cristo encarnou na Terra e mostrou que Deus não era uma teoria, mas um fato em carne, osso e espírito.

 

Quando Cristo Jesus apareceu no meio do mundo civilizado, a economia de todo o planeta já era monetária. A moeda já havia encarnado no meio da Turquia, sete séculos antes de Cristo. E a sociedade já era dividida em duas: escravos da moeda e escravos do dominador da moeda. Não havia espaço pra escravos de Deus. Portanto, aqueles que proclamavam essa terceira categoria social eram assassinados.

Mataram Sócrates, Bruno e Gandhi. Degolaram João Batista. Crucificaram Jesus e Pedro. Mas Cristo continuou pairando no ar, e atendia pelo seguinte nome: Cristianismo. Tal sistema ensinou as pessoas a dependerem da Igreja pra viver, mas não ensinou as pessoas a se libertarem.

 
O Salvador até que tinha conseguido libertar uma dúzia de almas, mas a grande maioria continuou morrendo e desmorrendo, na esperança de que Deus encarnasse de novo. E Ele retornou, na Idade Média. Séculos atrás, a Luz veio às trevas, mas as trevas não compreenderam a salvação pelo amor. Desta vez, então, Nosso Senhor apostou suas moedas no medo. Não veio com sandálias e túnica, mas com chifres e rabo . . .

( continuação... )

Ele se divertiu bastante. Salvou meia dúzia de almas, impondo-lhes o sentimento da culpa. Mas, novamente, a maioria da humanidade continuava nascendo e desnascendo no vale de lágrimas, à espera daquele que veio mas ninguém viu.

 

Cristo abandonou a Idade Média, mas pensou em retornar. Porém, cansado de descer ao inferno, sofrer e sorrir com a desgraça alheia, ele procurou voluntários. Infelizmente, não surgiu ninguém disposto a tal aventura. Então ele convenceu a sua própria sombra a descer ao vale de lágrimas. E ela desceu. Aqui, a tal sombra de Cristo ficou famosa. Era conhecida por um nome solene: Capitalismo. Esta sombra divina ensinou as pessoas a dependerem do dinheiro pra viver. A partir daí, quem desejasse comer, precisaria plantar dinheiro.

 

Contudo, alguns terrenos davam mais dinheiro que outros. No terceiro mundo, o Cristianismo foi o maior exemplo de religião que se transfigura em ideologia, ou seja, uma doutrina a serviço da exploração econômica: “Calma! Você é pobre? Então fique sereno! Nosso Senhor proverá”. Cansados dessa ladainha, os homens decidiram ir contra a natureza das coisas. Criaram o Comunismo, e ensinaram as pessoas a dependerem do Estado pra viver. Como o Estado era de todos e não era de ninguém, o deus Capital voltou a seduzir os homens com o sentimento de posse, apego e amor às coisas. Você quer um livro anticapitalista? Compre-o. Você quer fundar uma nova religião? Alugue o terreno. Você quer viver eternamente? Compre um clone.

 

Finalmente, o Redentor venceu, voltando a reinar no interior de nossos bolsos. Cristo está vivo! Quem tiver olhos de ver, que veja. Quem tiver ouvidos de ouvir, que ouça: Ó, pobres de espírito, deixai o Capital penetrar nas profundezas do seu banco! Pra isso, basta abrir uma conta, fazer o que não se gosta, desprezar o talento e não dar ouvido aos hereges. Afinal de contas, ninguém pode servir a dois senhores. Você é ou não é um cristão? •

VINHO TINTO

(por Alessandro Lima)

 

vulto vago no teto

nervo tenso no vidro

velho vício no tato

núbio vento na tribo

touro morto no trilho

tudo vivo no verso

mito nulo no mato

todo vácuo no vinho

tempo tinto no texto

CÚ COM ACENTO

(crônica de Alessandro Lima)

 

 

  Sou professor de Português, mas devo dizer uma coisa, doa a quem doer: cú, no coloquial, leva acento. Cú sem acento é química, hermetismo, estupidez dos gramáticos. Cú sem acento é uma coisa indecisa, surreal, que ninguém entende direito.

 

  Cú com acento parece uma coisa bem resolvida. Sei que se trata de um monossílabo tônico terminado em “u”, e, como “nu” e “tu”, não levaria acento. Mas fôda-se! Na linguagem de rua, cú não é monossílabo. Cú não é palavra. Cú é palavrão, signo lingüístico usado pra designar o íntimo da bunda do cidadão. Nessa delicada região devem tomar todos os filhos da puta com quem a gente se irrita.

 

Para a bruta maioria dos brasileiros, o cú e o Messias de cada dia, a única esperança de redenção depois da luta diária. Para nós, ibéricos, gays e sodomitas, essa infecunda região é propícia a semeaduras sem perigo. Sem o perigo da criação da vida!

 

  Professores do Brasil, baixemos uma nova regra pra facilitar a vida tão sofrida do povo brasileiro: todo palavrão toma acento, e pau no cú dos gramáticos. Pôrra, acentuar um palavrão é a ênfase natural, interjeicional do sujeito falante e brasileiramente pensante.

 

  Não há nada mais triste do que ver um cú no muro sem acento. Parece que fica faltando alguma coisa. Dá vontade de ir até lá e desenhar, na diagonal, um pau negro bem duro entrando na vogal mulata.

 

  O português, especialmente o dialeto falado no Brasil, é por natureza redundante, excessivo, farto como as bundas que redundam nas esquinas. Guimarães sacou isso há decadas, mas não virou puta dos editores. Virou Rosa!

 

  E quem disse que brasileiro não gosta de ler? O brasileiro adora coelhar em sebos e livrarias. Adora gasparetear por quinhentas páginas, para descobrir que o livro só tem uma palavra a dizer: CÚ, logo existo.

VERDADE

(por Alessandro Lima)

 

de um olho

vejo puro

de outro

vejo podre

 

meu juiz

é o nariz

BATE-BOCAS

(por Alessandro Lima)

 

foram tantas palavras boas

tantas palavras loucas

palavras ocas

poucas

palavras

tantas

foram

EGO PERDIDO

(por Alessandro Lima)

 

entre o sexo

e o plexo

um nexo

 

entre a seta

e o cego

uma pedra

 

FESTA SEM GENTE

(por Alessandro Lima)

 

a cadeira é sádica

o chão é masô

 

ela é amoral

ele é amorável

 

ao som do sax

seus sexos

rolam soltos

OUTROS QUINHENTOS

(por Alessandro Lima)

 

ò país de muitos andrades

ò país de tantas chicas

 

ò moreno país de muitos brasis,

ò país-bundamor que fraude explica

 

ò Brasil que desconhece o Brazil,

ò Brasil, que puta te pariu?

OFERTA

(por Alessandro Lima)

 

na porta

a moça

com peitos de melão

vende roupas

a preço de limão

TRÂNSITO TÂNTRICO

(por Alessandro Lima)

 

consumidoidos

celibatarados

sonambulam

avenidas

que se cruzam

num critério

esquizocasto

e teimoso

de esquinações

 

amarelo-me

sangue à vista

o que não transita

tormenta

SILICONE

(por Alessandro Lima)

 

explode

um peito

cheio

de vazio

SER HUMANO

(por Alessandro Lima)

 

poder               amar

saber

amar               poder

 

E-MAIL PRA IMMANUEL KANT

(por Marcelo Ferrari & Alessandro Lima)

 

Mané, meta química na cabeça!

Zoom!

Zen substância

Tudo que tu vês é um

Sem ânsia

Quando observador é diferente de observado

 

Toma cuidado, Mané!

Metafísica não é!

Pra ver o um, tens que olhar o zero

Rodeando a coisa por todo lado

 

Mané, meta ritmo no pé!

Com ânsia

Tempo é distância

Entre zero e um

Baticum!

Deixa de ser cabaço!

Espaço é olhar

Ver é saber o lugar

 

Metafísica o caralho, Mané!

Tempo é lei.

Tu és gay?

Metafísica no cu, Mané!

Pum!

És ruim da cabeça ou doente do pé?

COISOLHAR

(por Alessandro Lima)

 

coisa

estado

sozinheza

com ciência

e ânsia

a retina vê

até de pálpebra cerrada

 

o resto

o zero das coisas

pelada substância

que o olhar desvê

e que à retina some

consciência come

OBSCENO

(por Alessandro Lima)

 

entre o puro

e o pútrido

o olho

CONSUMIDOIDO

(por Alessandro Lima)

 

tenho bem

mais o bem

que me falta

CRISOL DA LIBERDADE

(por Alessandro Lima)

 

as margens mansas

do rio Ipiranga

não ouviram o grito

do povo heróico

PONTOS DE VISTA

(por Alessandro Lima)

 

físicos…

metafísicos?

poetas!

político$
SÊMEN

(por Alessandro Lima)

 

ave pode ter ovo

ovo pode ser ave

ave pode ter uva

uva pode ser ovo

eva pode ter ovo

ovo pode ser eva



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